NÃO CHORE NO DIA DE SÃO VALENTIM, AMADO.
título alternativo:
amor em forma de caleidoscópio
NÃO CHORE NO DIA DE SÃO VALENTIM, AMADO.
No ápice do calor, flutuando na piscina
enquanto meu livro sobre a mitologia grega me aguarda com gritos, pude sentir
uma lágrima no meu rosto. Choro quase todos os dias de minha vida desde que
posso lembrar. O verão é uma criatura curiosa, pois derrete o corpo e nos deixa
com uma poça em formato de alma e sonhos proféticos. Todos os verões me fazem
querer deitar na grama alta e comer amoras até vomitar. Todos os verões são uma
imensa névoa de melancolia para mim— tudo sempre morre no verão. Sempre acabo
chorando nos braços de alguma paixão de minha vida. Sempre choro para uma
plateia quando os dias estão mais do que mornos. A ideia de que a água poderia
me limpar e o cloro me faria ser algo puro de novo sempre nos castiga com um
enjoo, uma sensação turva— a mentira das palavras entre os toques turvos sempre
foi as minhas únicas salvações nos dias quentes. Sentar ao lado de mil olhos
e contar histórias com palavras bonitas— recitar Hilda Hilst pela milésima vez,
beijos com estrelas na ponta da língua com a esperança de encontrar o gosto de
cloro, o gosto de uma promessa menos viva, menos real— limpa de tudo que
fizemos nos últimos anos. Sabe, um dia eles vão querer saber sobre tudo que
temos vergonha de admitir, meu caro amigo, admito mil palavras, mas nunca te
falo sobre os meus passos. Sou apaixonada por mentiras, mas prometi nunca mais
mentir como antes, prometi que apenas mentiria caso estivesse sob a meia luz,
com olhos aveludados na minha frente me falando sobre livros que nunca li,
vidas que nunca vivemos— a mentira só é permitida (nesta nova vida) quando
imploramos por uma nova musa. Toque no toque, eu minto sem culpa, sem raiva,
sem lágrimas. São nesses momentos que deixo de ser corpo e passo a ser desejo,
e são nesses momentos que podemos mentir com a certeza de nunca passará disso.
Nunca seria confortável acordar do seu lado ou chorar no seu ombro.
O choro, a chuva, o mar— são mais importantes
para mim do que um amor me esperando no altar. Nunca entendi o porquê temos que
vender a alma e o corpo para chamar um amor de duradouro. Prefiro a minha
solitude e o seu silêncio que me segura com a certeza de que somos— eu e você,
apenas. Gosto de voltar para as palavras por conta própria e te ler poemas,
gosto de cantar na rua para as estrelas e acordar na minha solidão. Gosto da
liberdade mais do que gosto da ideia da devoção espiritual. Um antigo amor um
dia me disse que eu nunca seria a pessoa com quem se casariam com, mas sim,
aquela que eles sentiriam saudade pelos próximos quarenta anos de suas vidas—
naquele momento, soube que éramos fadados e isso que faria de todos os nossos
momentos algo inevitavelmente etéreo. Nunca consegui misturar musas com amores.
Ou eu te amo ou escrevo personagens sobre ti. Desejo, minto, toco e vou embora.
Fico, beijo seus livros e cozinho algo afogado em limões. Volto para mim,
escuto os vizinhos tocando acordeão e sei que por mais que nunca troquemos uma
palavra sabemos de algo substancial sobre a arte e sobre um ao outro. Eu sei
que você ama músicas europeias— você sabe o que uso quando danço de noite. Mil
árvores nos separando, mas, talvez a vida mais linda seja sobre isso.
Reivindicar a solidão. Tinha abolido essa palavra do meu vocabulário depois de
passar um ano inteiro dormindo ao invés de encarar o mundo, mas, um dia, um par
de olhos qual eu confio muito e evito o máximo me manter calada sobre, pois sei
que nunca iria parar de falar sobre você— morreria de ciúmes, pois eu gostaria
de te ter só para mim—, um dia, o par de olhos bonitos me disse que a solidão o
faz se sentir vivo, genuinamente vivo. Ainda não entendo muito como a
felicidade e a solidão seriam um par, mas,
amo quando não sei sobre algo que a alma que se apoia na minha domina
com tanta sagacidade.
Sinto vontade de chorar todas as vezes que te
vejo, acho que é um bom sinal. Te conto a verdade sem pensar duas vezes— existe
algo morrendo entre todas as trajetórias das linhas de minhas mãos que não te
incomoda. Esse cheiro amargo do perdão, o olhar fosco, o pássaro morto que se
deita na porta de minha casa, o sangue, os hematomas assinados pela própria
pele— nada disso nos impede de continuar a dançar, ou, de deitar em silêncio e
assistir os dias passarem. Dois livros que não se conversam fluindo na mesma
mesa, se parafraseando com excelência. “Esse é o verdadeiro significado da
vida”. Roubei esta frase da mesma escritora qual eternizei perto de meus
ombros— ela entende de algo que nós sentimos na pele. O Sol cruel, as noites em
claro, os rituais, os sussurros ilícitos. Ela entende dessas mesmas palavras
que nos calam por uma noite e algumas manhãs. Que sorte a nossa, de poder
chorar, mas de não ousar arrancar esse silêncio das nossas mãos.
Uma pilha de livros que espero terminar de ler
nos próximos quatro dias se senta orgulhosamente nessa mesma mesa que te
escrevo agora mesmo, meu caro. A poeira, as rugas, a história que nunca vivi,
mas posso tocar me faz com que eu me perca na paixão. Odeio ser a primeira a
tocar em algo, odeio ser um primeiro beijo, um primeiro amor, um primeiro
qualquer coisa. Sou fascinada pelas vidas bem vividas, pelos livros gastos e
muito lidos— pelas notas nas margens, pela tinta na tela, pelos cavalos velhos
e suas celas arranhadas. Por olheiras profundas e dentes de nicotina. Vidas bem
vividas, selvagens, sinceras, pura alma, pura poesia. Espero amar essas palavras com a mesma
imensidão que amo escrever para ti. Espero que entenda que eu não minto para
você, mas que palavras debaixo do sol são como os sonhos que nos trancam em
vidas nunca vividas e que não poderia, jamais poderia te falar de onde vem
tanto choro assim— as vezes, nossas almas são grandes demais, carregamos
tristezas de outros corpos, outros nomes, outras vidas. O choro nos permite
viver o aqui e o agora, permite com que todas essas memórias escorram para
longe da vida. O choro cura, o mar canta a nossa melancolia e a chuva lava a
alma. Um banho completo. Agora sinto cheiro de colônia de lavanda, sinto o
gosto das amoras maduras demais na ponta da língua e a minha lembrança de ti no
fundo da garganta. Que sorte grande essa, de poder chorar sem audiência e amar
sem precisar de romances. É triste ver o toque como casamento e o casamento
como uma necessidade. É lindo poder olhar para o corpo ao lado, colocar a boca
em seu rosto e te manchar de batom da mesma forma que você me mancha e falar— “
eu te amo!”, com a certeza de que nosso amor não nasce de um romance, nossas
cartas não nos delatam como tais. Que sorte grande essa de poder chorar nos
seus braços e amar a sua alma com tanta solitude. Ainda evito a solidão como um
conceito, só lembro o como pode ser lindo ao lado de uma quietude plena. Confio
na tua solidão e espero o mesmo. Ainda choro de amor e de dor e ainda choro
todos os dias. Olhos estrelados sentindo o peso do mar nas pontas dos cílios,
aguardando o dia que as suas mãos vão voltar a tocar no meu rosto da mesma
forma que sempre fazemos, em silêncio— volto para a minha máquina de escrever e
soçobro sem audiência, meu amado. E, continuamos dançando, continuamos
beijando, continuamos escrevendo e lendo e continuamos a amar sem medo.



Comentários
Postar um comentário