TUDO AQUILO QUE NÃO TE DIGO

 


Caso eu te diga “eu quero fugir daqui”, tudo que pensariam era no físico— de cidade em cidade. Uma mala, um par de sapatos gastos e um número de telefone novo que ninguém conhece. Talvez, se eu te olhar nos olhos por tempo o suficiente algo em mim comece a chorar. Não podemos fugir para sempre, você sabe bem disso. Entretanto, nada nos impede de ficar em silêncio, mas o silêncio é confortante ao ponto de parecer um castigo— o meu silêncio se deita nas possibilidades de desaparecer entre trens e acabar nos meus braços prediletos. No colo de uma das almas mais gentis que já conheci escuto palavras que tenho medo de admitir com a própria voz. Mas as árvores acima de nossos corpos e seus olhos, as mãos no cabelo, as pilhas de livros, eu sinto sua falta— ele estava certo. Enfim, voltei para casa e chorei por dias, não sei o que há de errado, sazonalmente me sinto desolada. Sem palavras, sem ar. Não me toque. Não me olhe. É engraçado como deixamos os anos passarem, mas não sabemos nada sobre os olhos dessa mesma mesa que ocupamos há décadas. Conversas pequenas, você não se importa com toda a sua ausência, ou com o meu silêncio. Você gosta dos mesmo programas de rádio que eu, temos o mesmo livro na estante, mas o seu está intocado e o meu está tingido de pensamentos e epifanias que tive na mesma praça que passei a vida esperando por ti. Fiz uma lista mental sobre tudo que sei sobre você e tudo que nos faz continuar aqui. Seis itens pessoais demais para serem publicados. Seus olhos se fixam nos botões soltos da minha blusa e no vermelho da minha boca. Você me implora para comer todo o resto, mas o resto sempre foi tudo que eu tive. É como se implorasse para alguém ficar no mesmo lugar que eles sempre conheceram. O que tem em pratos bem-feitos ou em grandes porções? Não me permito saber. É algo que temos em comum, viu? Ainda podemos fingir que está tudo bem, mas eu não posso fingir felicidade. É difícil sentir algo bonito dentro de casa, dentro dos quadros, dentro das mesmas conversas. Eu quero fugir daqui. Nunca vou saber ser algo além disso

DOUBLE-EDGED SWORD

Besides every other cry in the distance, I’m the only breathing soul.
my mother made me a thinker & a heart of storms—maybe I was made to become and to destroy,
to be and to kill
it.

I’m always in half, always divided—half gallops to the shoreline, half lost train rides & smoky sky. maybe there's no such thing as a half
daughter or a half someone, but I can still be real.

Even if there's no such thing as half rage, half kindness—
half in flames, half drowned—
half false hope, half destruction—soul.

Escrevi isso dois anos atrás em um guardanapo qualquer enquanto fugia dos nomes que tentavam atrelar aos meus— nunca vou parar de correr. Tudo que eu gostaria de te escrever é pessoal demais para entregar a um par de olhos o qual eu não posso esperar uma declaração sincera. Da sua alma para a minha, jamais. Toque demais. Mais real do que o esperado. Tudo que eu gostaria de te falar não tem um pingo de mentira, tudo que eu gosto em você não é inventado. Você sempre gostou mais do imaginário e eu sempre fui muito fechada. Não sei dizer se os dedos que se tocam não derretem, se a carne não se tornar vida não faz sentido [...]. Passei três dias no escuro e escrevi tudo que senti em meus diários, espero que nunca leia, mas se eu incendiar esse ponto entre o papel e a tela — não tem volta, as palavras sairiam, você sabe, não tem volta. E tudo que é concreto, talvez mais gentil do que o passado assusta, eu sei. Que pena, ele estava correto — sou orgulhosa demais, não vou conseguir dizer que sinto sua falta, se sentir a falta me traz palavras e se as palavras me trazem algo que vale a pena segurar. Sentei no chão de meu prédio e chorei com uma vizinha, coloquei tudo para fora — ela ofereceu brincar de terapeuta comigo, mas estou ocupada demais. Me afaste do profundo se for preciso para encontrar magia nos olhos calados diante dos meus. Fiz isso para aquela garota de dezesseis anos que rabiscava com sangue nas paredes: “preciso me sentar na companhia de um estranho, falar tudo que eu sinto, chorar tudo que eu penso com a esperança de que nunca vou vê-los novamente.” [...]. Gosto de escrever em uma cafeteria popular na minha esquina predileta porque é perto da minha crença de que sempre vou te achar nas ruas, mas sempre me alivia com a memória de que tudo que eu amo é uma certa piada para muitos. Você nunca andou esperando pelas mesmas bênçãos, acho que é orgulhoso igual a mim.



Andei falando pouco, o mar chamou e a minha alma atendeu. Existe uma conversa conjugal entre o poeta e os corpos d’água, eu jamais saberia dizer não para ela. Tudo que eu pude fazer foi parar, tudo que pude fazer foi permitir que o peso levasse o corpo e trocasse as almas de lugar. Isso não vai fazer sentido se nunca buscar por cores ao redor de ossos, ou por amor nos olhos em silêncio na sua frente — tão desesperados para falar. Eu preciso que você fale. Eu preciso que você fale. Eu preciso que você fale. Fecho os olhos e penso na * brincando com meus cachos enquanto nos afundávamos no gramado, com mil livros ao nosso redor — * falou muito sobre o amor e sobre tudo que ela anda reparando, * está envelhecendo com tanta sagacidade entre a língua e a voz, que honra se assistir isso de perto. Sinto falta do seu colo pois sinto falta do amor, e ando com medo de perder o pouco que não me resta se abrir os olhos. E é como lhe disse — tudo que gostaria de te contar é pessoal demais e não temos esse contrato de almas espalhado entre nós. Não sei confiar em algo tão sem chão assim, e você não saberia ficar. Acho que a minha vizinha deve ter rido muito de mim quando voltou para casa, acho que preciso parar de confiar a alma aos estranhos e o corpo a quem eu conheço. Fecho os olhos e espero a voz do mar guiar a alma para um lugar mais sincero.

Ainda mantenho os rituais, eu posso ter me tornado outra pessoa nos seus olhos mas ainda sou quem chora em todas as despedidas— quem volta com os olhos aguados para casa. É ritualístico, e você não se importa, pois não te afeta da mesma forma, que pena. Eu te amo. Enfim, não posso falar sobre isso, mas posso te falar sobre ontem, e sobre como fingimos ser a nossa primeira vez olhando no rosto uma da outra de novo. Como estávamos sem querer vestidas como se estivéssemos prestes a declarar nossos votos de amor eterno no altar— acho que podemos todas dar as mãos e fingir que a nossa promessa de amor é um documento genuíno. Jamais teria saído daquela mesa, jamais gostaria de estar em qualquer outro lugar. Não me faça voltar para casa, eu não quero chorar— de novo. Pegue na minha mão e me leve para o seu lado da cidade, ou para qualquer outro canto que não me lembre que acredito em destinos. Olhe nos meus olhos de novo e prometa que vamos continuar assim, a nossa fidelidade nasce no sentimentalismo. Não é porque meus sonhos são diferentes dos seus que eles sejam menos importantes ou mesmo uma ameaça para os nossos caminhos. Se você quiser, meus braços estão abertos, desesperadamente aberto. Sempre me sento no mesmo banco nesta mesma estação, sempre ascendo os mesmos desejos esperando alguém que olhe nos meus olhos e não sinta medo de tudo que é real— se eu começar a chorar, por favor olhe para o lado oposto e só se vire para o meu rosto quando quiser fugir comigo. Consigo sentir o gosto do mar na ponta da língua, acho que é um sinal. Sazonalmente desmorono e não sei voltar antes de morrer um pouco.





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