ALMA DE BOÊMIO
JANEIRO, NUNCA LHE ESPERO Pelo menos, não com os braços abertos. Não com a alma exposta. Ando em silêncio, pois existe um pedaço de alma entalado na garganta que só sairia com um choro fadado. Enquanto isso, ando dormindo e acordando em camas distantes da minha. Ando vagueando pela noite, ando buscando por um resquício do êxtase que se deitou sob meu corpo dois anos atrás. Estou quase certa de que irei viver só para sempre, entre os sonhos de não chorar pela constante presença e a fala contínua. O que dói não é a gentileza do próximo, mas sim o espelho de carne. Existe uma teoria de que somos todos reflexos interpessoais uns dos outros — estamos aqui para assistir e aceitar tudo que há de podre e singelo, de dentro para fora. E a grande diferença entre dois anos atrás e o agora é a abundância de vida nas veias, a falta de remédios na escrivaninha, a quantidade de amores em formato de mulheres e homens que apoiam seus batimentos nos meus. O mais importante, e talvez o mais desafiador, é aprender a conviver com a felicidade, com o seu barulho e a falta do cômodo mórbido do nosso fim. Estava pensando nisso quando vi em seus olhos algo que nunca mais tinha encontrado, não desde a última vez que chorei a verdade. O nosso silêncio se comunica melhor que dois corações expostos. Não pertencemos a ninguém, nem eu e muito menos você — talvez nunca sejamos mais do que almas sem rédeas. Não sei se consigo parar de voltar para a sua mão no meu rosto, a gentileza breve que se espalhou na pele. Atos minuciosos são mais reais que palavras. Talvez nunca sejamos mais que o vão entre tudo aquilo que fomos e tudo aquilo que seremos. Essa é a graça de conhecer almas com tanta vida dentro delas. Olhar para o par de olhos que se sentam à tua frente com a mesma empatia que sentiria pelos pássaros na tua janela. E vale mais que a pena provar deste absoluto argueiro, caso esteja por perto.
Pulei de abraço em abraço, de casa em casa, e
finalmente voltei para cá. Um dos passos mais importantes do meu rito de
silêncio foi nadar pelas manhãs e dormir com um livro no peito sob o sol.
Queimar as páginas, queimar o corpo, voltar para casa. Lembrar do poema que
escrevi dois anos atrás: eu estava errada, eu quero sim — e quero mais que tudo
— essa boemia eterna. Dançar na janela, com a liberdade entre minhas mãos.
Entretanto, eu sempre volto para cá. Um colo quieto, uma rotina fora de si —
fora de nós. Existe algo ritualístico nisso tudo, existe algo fervoroso e
sensual nessa quietude. Não preciso que ninguém saiba de absolutamente nada que
acontece quando nossas palavras não se entrelaçam. Quando não nos sentamos na
mesma mesa de bar para discutir sobre ideias de homens mortos — que sorte a
nossa saber que se pode viver assim. E eu confio em você da mesma forma que
espero a tua palavra. Não existo quando não me toca, não ecoaria de formas tão
concretas se não estivéssemos alma na alma. Foi assim que parei de chorar.
Chorei por todos os dias de janeiro por causa da finitude de tudo aquilo que
nos fez ser um pouco destoantes, um pouco sonhadores e completamente mortais. Volto
para a memória do dia em que soube que existem histórias que são melhores de
serem deixadas para trás, da mesma forma que existem vidas que eu espero que
sempre fiquem, pelo menos até amanhã. Fique, se não te importa a verdade, se
observa mais do que o resto e, mesmo assim — mesmo assim. Enfim, as horas vagas
debaixo do sol são um certo tipo de castigo para um bicho dos dias frios como
eu. Sinto falta da chuva, sinto falta do silêncio, das cafeterias, dos
sussurros de uma falsa eternidade. Sinto falta de ler contos em voz alta, mas,
acima de tudo, sinto um enorme alívio em saber que nenhum sonho de verão foi em
vão. O verão talvez seja a constante memória de que tudo aquilo que dorme do
outro lado do oceano sabe sobre algo que ainda não conseguimos encostar — eles
têm a visão de nosso fim, da mesma forma que somos um reflexo do seu.
Minha irmã se senta ao meu lado todos os
domingos; conversamos sobre absolutamente tudo. Gosto de ouvir mais do que
gosto de falar. Uma das coisas mais lindas de alguém é, sem dúvida alguma, as
suas histórias. Tristes ou cômicas, não importa. Um corpo bem vivido, uma vida
digna de poesia — isso sim supera qualquer coisa. Era isso que pensava enquanto
eu tentava me manter presente no nosso café da manhã semanal, enquanto as
memórias dos últimos dois dias rebobinavam em minha mente. Ainda estou ali, de
certa forma — sentindo meus olhos implorarem, me avisando que estava prestes a
chorar de novo. Sou teimosa demais; não me permitiria. Você sabe. E as luzes
vermelhas, e a sangria, e as nossas risadas entre as preparações na cozinha, e
sair correndo para a certeza de que os seus olhos e os meus olhos — alma pura,
almas completas. Enfim. Não podemos viver para sempre na memória; existe algo
substancial acontecendo agora mesmo. Uma fração importante da boemia vem dos
seus momentos de calma. As manhãs tomadas por discos, risadas, o barulho das
cigarras lá fora — a chuva. Os poemas. As manchas de tinta na ponta do nariz.
Uma vida inteira acontece e morre em cada mesa dessas; não trocaria isso por
nada. Não te trocaria por absolutamente ninguém: o silêncio e as rotinas fora
de si, e as minhas manchas de batom vermelho pela cidade, e os bares, nossos
bailes na calçada, a falta de fotos, a abundância de verdades — não conto uma
mentira desde minha última viagem. Ando nas pontas dos pés, sem nada no corpo
além da alma, da verdade, da fome e de como tenho medo de toda essa infinidade
mortal. Como todos eles vão aos poucos e eu fico nas memórias, e como quase
chorei, mas o orgulho, e as memórias. Eu sinto muito pela minha ausência e pela
falta de sentido. Ando escrevendo muito, ando lendo menos do que gostaria. Ando
fazendo de tudo por essa vida de boemia eterna, pois prefiro ser amor dos pés
até a cabeça do que voltar a mentir para mim e te falar que não existe como ser
muito mais do que apenas aqueles mesmos sonhos de desistir de tudo para viver
pelo próximo. Não consigo mais mentir, não consigo mais olhar para todas
aquelas páginas e sentir o mesmo amor pelos poemas e muito menos pelas nossas
memórias.
Estou ficando velha, estou cada vez mais viva,
estou chorando menos e estou menos tímida. Eu quero que saiba o que penso sobre
você, e eu quero. Quero muito, o tempo todo; isso não faz alguém ser ruim ou
louco — isso nos faz vivos. Escrevi um conto sobre isso: pequenas mortes, vida,
fins, a moral fragilizada, a importância dos sons que o corpo faz e a nossa
falta de vergonha. Foram entre esses dias de quietude e melancolia que
encontrei as nossas vidas de novo e de novo e de novo — na cozinha de uma de minhas
amigas mais queridas ou nas viagens de trem até a minha alma predileta. Não
quero muito mais além disso: escrever e amar, continuar viva — ao seu lado, que
honra.
Um dos livros que li este mês me fez pensar
sobre como ela nunca quis que o mundo soubesse sobre como ela era, quem ela
era. Escrever confissões não te faz um livro aberto — escrever confissões te
transforma em um reflexo do leitor. “Você tem uma questão com a sua melancolia,
qualquer um veria isso.” — o mundo congelou por completo. Existe um mundo
inteiro e existe nós, mas nunca me preparei para o momento em que buscassem por
humanidade. Imagino que seja assim que a alma de Didion se sinta ao ver as pessoas
lendo e discutindo suas cartas com seu terapeuta. Toda a sua sensibilidade
nunca vista — não sei se ela gostaria de que soubéssemos tanto assim.Eu não
quero que me conheçam da mesma forma que os diários debaixo de minha mesa. Se o
choro se eternizar, acho que seria isso para sempre. Você acha que ela ainda
pensa sobre isso? Sobre como pensaram que seus textos deram a liberdade de
ganharem algo em cima da sua dor, da sua humanidade — algo que ela não queria
ser: ela mesma, para todo o resto. Por isso, peço que entenda o silêncio e o
grito, o corpo, os poemas, as histórias sobre florestas e heranças e, acima de
tudo, todo o amor que faço e toda a alma que sangro, pois sou e você é, ao meu
lado. Sempre seremos vivos. Sempre seremos boêmios nos bares, poemas à ponta da
língua, bocas manchadas, preces de domingo e o gramado dos jardins de família.
Sempre seremos esse silêncio, essa promessa. Uma memória eterna. A boemia e os
poemas sobre a sua alma e o corpo que viramos — sou eternamente apaixonada por
essa memória.




.jpg)



Comentários
Postar um comentário