A VOZ DO MAR
Nunca vou conseguir parar de correr— choro pela constante mudança e sinto falta do piso firme. Ainda prefiro a incerteza de certa maneira, a dúvida nos mantém vivos. Fiz as malas e segui a voz do mar. Normalmente, quando saio às pressas da cidade, eu arrasto meus ossos até a alma da minha vida, mas, desta vez, fui até a beira do precipício. Juntei algumas de minhas mudas prediletas de roupas, entrei em um carro e sentei na beira do mar. Por muito tempo, o mar era para mim o sinal de que uma grande parte da minha vida acontecia longe de mim, em um continente distante. Lá estava tudo que era meu por uma noite ou por uma semana. Na beira de um oceano, mas jamais no meu, não. Hoje, sento de frente para o mar e encaro sua grandiosidade de outra forma. O mar é uma parte importante do corpo da vida, principalmente em uma terra como a nossa, com almas como essas. Enfim, soube que era a decisão correta, pois conversei com um amigo de minha irmã sobre absolutamente tudo. Arte ou morte. E eu sei que preciso correr se quiser escrever. A cidade fica morta nestes dias de luto. O abismo entre dois anos é o funeral da cidade que nunca dorme, da cidade que ainda está decidindo o quão boa pode ser. O meu grande amor e a minha prisão de alma— preciso de dualidades para sobreviver, falamos muito sobre isso. Existem pessoas formadas por conceitos completos, nomes cheios e diversos, mas existem pessoas que sempre serão uma fricção/uma controvérsia ambulante. Talvez nunca exista um conceito concreto para isso, mas ainda podemos ser reais. Ainda posso segurar o seu rosto em silêncio em resposta à sua falta de palavras— podemos ser assim para sempre, parcialmente fugitivos que vivem nessa mesma cidade por tanto tempo.
Tentei fazer diversas listas nestes últimos dias, mas não sei funcionar de forma funcional entre elas— sempre acabo nos seus braços. O que quer que isso signifique para você. No final do dia, precisamos nos desapegar de significados antigos e atrelar novos sentimentos aos mesmos pares de olhos, ruas e às novas vozes que nos acompanham. Que honra a nossa de ter a possibilidade de recomeçar. Listas jamais poderiam guardar tudo isso que tenho no peito, e desisti de fingir ser prática anos atrás: tudo que uso é dramático, tudo que sinto ocupa muito espaço e todos que eu beijo ficam marcados, não sei ser qualquer outra coisa. Mas me deixe fugir por um segundo, ou por cinco dias. Prometo voltar para você no final do dia, prometo falar com o mar e dar seu nome às estrelas, mas me deixe continuar correndo. Se eu parar, se eu ficar por completo em um lado do mundo ou em uma única casa, eu irei desmoronar. A incerteza é uma grande paixão do meu sangue, e o mar pode me curar de todos os meus desvaneios de morte e simbologia. Tudo que precisamos é dedicar nossas vidas/corpos/almas aquilo que nos torna algo genuíno, algo humano— arte ou morte. Ele me disse que é um contador de histórias acima de tudo, que maravilhoso deve ser observar tanto, escrever com tanta alma e passar tudo isso entre taças de vinho e fins de festas. Mas cair de braços estendidos em uma viagem semi-planejada é aceitar os imprevistos entre as listas, a arte e a falta do caos. É engraçado, existem poucos lugares que não me fazem querer voltar para a cidade. Sempre corro de volta para as mesmas esquinas, não me considero uma boa fugitiva. Muito pelo contrário, eu choro pela distância. Ficar longe do caos que me ergue e me mata constantemente me desaba. Preciso aprender a ser menos apegada, preciso abrir as palmas e a boca, preciso falar muitas coisas e deixar que as memórias morram.
Enfim, pele rasga. Caronas nos acompanham até a nossa volta, razoavelmente vergonhosa. Meu pai disse que eu precisava aprender a deixar as memórias serem memórias, encontrar um conforto no desconforto. Ele está certo. Mas se eu não viver a constante memória do que somos/do que fomos... seria inevitável. Seria a nossa morte certeira. Assisti um arco-íris se formando entre as cinco e as seis da tarde, quando estávamos ainda no meio da estrada— entre o ano passado e os galopes contra o vento, tudo que pude lembrar era de quando éramos pequenos e ainda conseguíamos ver arco-íris no meio da cidade e quando contávamos os dias para correr com os vagalumes nos finais de ano. Foi como uma lembrança, foi um recado: você está fazendo a coisa certa. Eu amo estradas, as viagens de carro, os postos de gasolina, a música alta, as paisagens. Talvez seja a parte mais sedutora das fugas, o caminho em si— destinos são concretos, mas as rotas podem mudar a qualquer instante. Então, da beira do mar, do sal no corpo que rasga a pele até o meu âmago— a noite abafada de verão na cidade grande. Com um sorriso no rosto, eu aceitei que sou feita de decepções e de metades. Nunca completa, pois isso significaria que estou satisfeita, que estou pronta para me tornar uma daquelas mulheres que detestamos por jogar as mãos para o alto e desistirem de seus sonhos para assistir outros sendo alcançados. Talvez, um dia eu pare de correr, talvez um dia eu não chore após um beijo, não desmorone no colo de estranhos com a certeza de que eles irão esquecer de mim. Um dia você vai olhar para mim e não reconhecer o que você gostaria. Um dia irei fugir daqui também, e espero eu que acabe entre braços sinceros cobertos de palavras serenas. No final do dia, tudo que eu sempre quis foi ficar, mas ficar seria olhar nos seus olhos e chorar— quando choramos na frente de alguém, estamos permitindo que eles peguem um pedaço da nossa alma, e eu não sei se ainda existe o suficiente. A última vez que chorei para alguém desta maneira, eu acordei um sepulto, o mesmo que prometi nunca mais. Nunca mais.
Enfim, voltar para casa é como chorar entre os trilhos— ritualístico, para dizer no mínimo. Arrastar o corpo até a cama, se deitar só e chorar até amanhã— um novo ano, que prometi para mim mesma e para os seus olhos que será um ano onde iremos falar absolutamente tudo— olho no olho, palavras sob palavras, boca na boca— sem medo. Usei do último dia do ano para correr até a minha livraria predileta, rezei baixo antes de entrar e comprei o primeiro livro que irei terminar de ler este ano dos galopes. Talvez você chegue a ler algo novo este ano, e isso está no topo da lista— confiar na alma diante da minha. Eu te direi tudo que quiser, cantarei qualquer música se você prometer ficar e fazer o mesmo. Se me prometer seguir as vozes do mar, mas sempre voltar para cá. Parcialmente embriagado, completamente certo do que diria se tivesse mais coragem, e eu prometo fazer o mesmo. Seguir a voz do mar.






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