CANELA NOS DENTES TRINCADOS
Ninguém está pronto para deixar tudo ir. Ainda esperamos por um amanhã melhor.
Uma casa, uma família, um final melhor que iremos decorar alegremente
com luzes cintilantes e amor em nossos olhos.
O sabor do chá queimado na minha língua combina com o clima inquietante —
o que aconteceu com a estrela moribunda amaldiçoada? Rezei demais? Ele ouviu?
Onde está o calor interminável do verão que derrete nossa sanidade?
Fecho os olhos, ouço o vento chamando meu nome.
Seguro minhas próprias mãos porque é tudo o que tenho.
Fora da minha alma, e para sempre preso a ela.
Você não entenderia, mesmo que eu abrisse minhas mãos:
se eu desenhasse linhas onde e quando eu sangrasse, seu nome estaria manchado em mim.
Seus olhos se torceriam para o além, mas nunca realmente veriam o corpo nu
diante de você.
Talvez seja o céu que devemos culpar.
O clima incerto que nos traz amantes incertos e festas de Natal
girando em torno de mesas de madeira colocadas dentro de salas que parecem grandes demais
e rostos desconhecidos de pessoas que conhecemos a vida inteira.
A canela entre meus dentes, a língua queimada,
a melhor garrafa de vinho e tudo o que ela faz aos nossos corpos.
Vou te mostrar meus truques de festa, se você me deixar.
Vou te mostrar como posso ler suas palmas livremente,
todos os seus amores,
doenças
e anos por vir.
Você vai rir do meu rosto e nunca entender o que significou.
Vou me mostrar entre os travesseiros e o sofá que nossos bisavós trouxeram da França.
Você vai me perguntar quando cresci, e eu vou te contar sobre
dias de cabelo bagunçado, gelo barato, explosões de guitarras e filmes antigos.
E você vai virar a cabeça e encontrar outra coisa para fazer —
porque nada de bom pode vir de olhos grandes demais, chá queimado e mentes bêbadas.
Então olhamos para o horizonte procurando uma estrela ou talvez alguma entidade para culpar.
Porque o sol está morrendo de qualquer forma, e não podemos culpar o calor sul-americano agora.
Então culpamos Vênus, Marte, Mercúrio ou talvez algum outro nome sagrado.
Esquecemos de decorar nossas casas, e amanhã é um novo ano,
mas ainda acreditamos que é setembro, e ainda estamos olhando para
as grandes coisas que podemos fazer,
nossos lábios nunca queimando, nossas almas — limpas,
e todos os segredos que o vento sussurra,
& nossos olhos colados no horizonte.


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